Dicas do Químico. Limpeza e Lavagem da Vidraria do Laboratório Químico e Biológico.

Laboratório de Michael Faraday
O Físico e Químico Inglês Michael Faraday, em Seu Laboratório. Fonte da Imagem: Cultura, Kulturális Magazin, Hungria.

Autoria: Alberto Federman Neto, AFNTECH.

Atualizado em 13 de Agosto de 2020.

 1. INTRODUÇÃO:

Neste Artigo, algumas dicas e sugestões minhas para lavar vidrarias de laboratórios químicos e biológicos.

A Imagem que ilustra este Artigo, mostra o Químico e Físico Inglês Sir Michael Faraday, (1791-1867), em 1800, em seu laboratório, na Royal Society, a Sociedade Científica Real Britânica. (Fonte da Imagem, Site Cultura, Kúlturalis Magazin, Hungria). À qual Faraday pertenceu e se tornou muito influente.

Trata-se de uma reprodução de um quadro da Pintora Escocêsa Harriet Jane Carrick Moore (1850). O quadro ficou muito famoso. Outras reproduções do quadro, links: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.

No Item 8,deste Artigo, falei sobre Michael Faraday e seu trabalho.Também é citado nos  links: 11, 12, 13,14, 15, 16, 17, 18,19, 20.

 2. LAVAGEM ROTINEIRA:

Aqui, vai muito da preferência pessoal. Para lavar as vidrarias, você pode lançar mão de sabões ou detergentes comuns. Cada pessoa, cada laboratório, tem sua preferência  para  a lavagem comum ou corrente.

Por exemplos, quando estudei Química no Colégio Técnico (Liceu Eduardo Prado, links 21 e 22) a gente usava detergente comum, de louça. Na faculdade (Universidade Mackenzie), eles preferiam usar sabão em pó, de lavar roupa, assim como no laboratório onde fiz Pós-Graduação (Instituto de Química da USP, Química Orgânica) e no IPT, Instituto de Pesquisas Tecnológicas, onde trabalhei.

Assim, você pode usar detergente, sabão em pó, ou sabão, como preferir. Alguns Autores recomendam usar um saponáceo fino que não arranhe o vidro. VOGEL, A.I; FURNISS, B.S.; HANAFORD, A.J.; SMITH, P.W.G.; TATCHELL, A.R. (Revisores) “ Vogel’s Textbook of Practical Organic Chemistry.” Editora: Longman Scientific & Technical, Londres, Inglaterra, 5a Ed., Págs 50-51 (1989).

Eu não gosto de saponáceos, porque sempre arranham um pouco. Desde criança (brinco com Química desde criança), eu gosto de usar sabão comum, mesmo…. sabão em pedra ou sabão de coco.

O sabão é alcalino, limpa bem, é mais fácil de enxaguar que o detergente, não deixa resíduos, não tem fosfato, é melhor para as mãos e o meio ambiente. De fato, sabão alcalino é recomendado para lavar vidrarias, por outros Autores. Escovas especiais devem ser usadas para provetas e tubos de ensaio.

Escovas Para Laboratório.
Escovas Para Lavar Vidrarias de Laboratório. Fonte da Imagem: RA Soluções Química Ltda.

Sugiro que você tente lavar a vidraria com o sabão mesmo. Em barra ou de coco.

Sabão de Coco.
Sabão de Coco, Marca UFE, União Fabril Exportadora Ltda. Fonte da Imagem: Hipermercado Extra.
Sabão Comum.
Sabão em Barra, Comum, Marca Ypê. Química Amparo. Fonte da Imagem: Hipermercado Extra.

Mas é uma preferência pessoal, se não gostar de sabão, use o detergente de louça, mesmo.

Se o sabão ou o detergente não resolvem, veja para outros casos:

 3. SUJEIRA ADERIDA:

Se o sabão ou detergente não forem suficientes, experimente deixar de molho em água com sabão em pó.  Comum ou melhor ainda, aquele para limpeza pesada.

Costuma resolver bem, tirar gordura, óleo etc…

 4. MUITA GORDURA OU SUJEIRA ORGÂNICA. REMOVER COLAS:

Esfregar e enxaguar com solventes orgânicos.

O mais comum, barato e pouco tóxico, no Brasil,  tentar com álcool forte. Aquele de 95º ou 96º GL.

Caso a sujeira não saia com álcool, tentar com aguarrás (de pintura) ou com querosene. Não se preocupe com aquele aspecto oleoso.  Resíduos de aguarrás ou querosene, demoram para evaporar, mas evaporam.

O querosene ou aguarrás são excelentes para tirar a cola dos rótulos de frascos, tipo de palmito, quando não saem com água ou álcool.

Caso seja muito necessário, recorra a solventes mais  voláteis, escolhidos entre os pouco tóxicos, mas lembre que são muito inflamáveis, precisa usar longe do fogo ou aquecimento. Benzina, Hexano, Éter de Petróleo, Acetona ou Acetato de Etila.

Caso não funcione, tente Thinner, mas use luvas (irrita a pele) e lembre que Thinner tem solventes aromáticos e é bastante tóxico.

 5. RESÍDUOS DE CORANTES:

Corantes têxteis, de alimentosindicadores e corantes para microscopia deixam resíduos coloridos na vidraria, às vezes difíceis de remover.

O que ajuda a remover é água oxigenada 20 volumes, de farmácia ou melhor ainda a água sanitária, água de lavadeira.

 6. MANCHAS DE SAIS INORGÂNICOS:

Sais inorgânicos coloridos, principalmente de metais de transição, como ferro, cobre, cobalto, níquel etc… podem deixar resíduos aderidos ao vidro.

Como remover? Bom, eu uso ácido nítrico a 30 %.

Para preparar a solução de limpeza, coloque 120 ml de água em uma proveta de 500 ml, e pouco a pouco, adicione 300 ml de ácido nítrico concentrado, em pequenas porções. Deixe esfriar e envase em um frasco âmbar, de preferência de tampa esmerilhada.

Não junte a água no ácido, mas o contrário, primeiro a água, depois o ácido, em pequenas porções. Use luvas, porque ácido nítrico concentrado é cáustico e forma manchas amarelas na pele.

Enxaguando a vidraria com essa solução, pode-se remover manchas de sais de metais de transição. Escorra o ácido, para reutilizá-lo.

 7. RESÍDUOS DE MATERIAIS BIOLÓGICOS:

Para remover manchas de sangue, urina, proteínas, gelatina etc…, existem produtos próprios, especiais para isso, como o Extran Alcalino, Extran Neutro, Outros tipos de Extran, Alconox, LABG&M, Prolab e Oxiclean, ES-7X, Dinâmica-Tech, Supra-Diag, Sterilex, Detergente CAAL, MPBio, Deconex, Riozyme, Zymedet e Asfer, Tergazyme, Liquinox e Citranox, Rea-Pur, etc…

Mas esses produtos não são fáceis de encontrar no comércio e são bastante caros.

Em muitos casos, podem ser substituídos por algo que tem composição química similar a eles: tensoativos, enzimas e fosfatos alcalinos… São os detergentes em pó, ou líquidos, para máquinas de lavar louças!

Há várias marcas comerciais: Sun, Finish, Verdes Mares, Jimo, Kitch Care, Unik, Limpol, Masterclean, Q’Lar, Ecodish, Skill, Brilhotex, Hygenizer e Grax, Startdet, Alcala, Deepwash,

Basta dissolver o produto em água, e deixar a vidraria de molho por até 48 horas (geralmente muito menos tempo). Eu uso o Unik, porque acho com facilidade perto da minha casa.

Mesmo sabões em pó comuns, com enzimas, podem funcionar. Links 46, 47, 48, 49, 50.

 8. SOLUÇÕES ALCALINAS:

Você pode precisar, eventualmente de soluções alcalinas.

Em alguns casos, basta simplesmente usar uma solução alcalina de tripolifosfato  de sódio, Na5P3O10, fácil de comprar, links: 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29. Ou outros fosfatos alcalinos, como hexametafosfato de sódio, Na6P6O18, (link 51, 52, 53, 54, 30), fosfato tríssódico, Na3PO4. Links: 31, 32, 33, 34, 35).

Também pode usar carbonato de sódio, bicarbonato de sódio ou soda cáustica diluída (5 %).

Uma solução alcalina para os casos de sujeiras rebeldes. Hidróxido de potássio alcóolico 0,5 mol/Lt. Preparo dessa solução: Dissolver 14 g. (0,25 mol) de hidróxido de potássio em 500 ml de álcool forte, 95-96º G.L. Demora um pouco para dissolver, Deixar esfriar e estocar em um frasco, de preferência plástico, de polietileno ou polipropileno.

Um pouco de História da Química, porque eu gosto. Interessante do ponto de vista histórico, essa solução é conhecida desde os tempos da Alquimia. Se chamava Alkahest , uma espécie de “solvente universal”, capaz de dissolver, desagregar, muitos “corpos químicos” (hoje, as chamadas substâncias químicas).

Foi inventada pelo Médico, Alquimista e Filósofo Natural Suiço Paracelso, Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim.

A fórmula original de Paracelso continha cal e carbonato de potássio suspensos em álcool, também usada pelo Alquimista Eirenaeus Philalethes (Pseudônimo do Alquimista nascido nas Bermudas, George Starkey) PHILALETHES, E. “The Secret of the Immortal Liquor Called  Alkahest or Ignis-Aqua.“, publicado em: PHILALETHES, E.; FRANCIS, A.; STARKEY. G.; RIPLEY, G.; HOCKLEY, F. (Coletor), “Collectanea Chemica.“, Editora: James Elliot & Co., Londres, Inglaterra, Pág. 12, Edição de (1893).

Foi modificada para a fórmula atual de hidróxido de potássio alcóolico, pelo Alquimista Flamengo (Belga), Franciscus Mercurius Van Helmont. Link 36, Link 37. O Alkahest era considerada uma “água dissolvente  incorruptível, capaz de reduzir qualquer corpo à sua matéria primária“. Em termos químicos modernos, imagine uma solução estável e capaz de hidrolisar e dissolver muitas coisas.

 No que concerne ao Alkahest, veja também  este Artigo.

Os Químicos também usam hidróxido de potássio alcólico como reagente.

 9. SOLUÇÕES ÁCIDAS:

Sugiro que procure não usar mais a clássica “Mistura Sulfocrômica“. MUTTON, M.R.J. (2011). ANDREZZA, T. (2016). ZANONI, E.T (2016). Pois ela é venenosa, cancerígena e muito poluente.

Também esqueça as perigosas mistura sulfopermangânica e principalmente a “mistura piranha” (ácido de Caro). Elas são explosivas e perigosas até de preparar!

Eu uso, quando precisa, ácido nítrico concentrado, ácido sulfúrico concentrado, ou mistura sulfonítrica 1:1 (volumes iguais de ácidos sulfúrico e nítrico concentrados) ou água régia (1 volume de ácido nítrico e 3 a 4 volumes de ácido clorídrico concentrado).

Em casos especiais, pode-se usar na limpeza, misturas de ácido nítrico e ácido ortofosfórico. Ou ácido muriático (ácido clorídrico industrial).

 10. QUÍMICA GERAL DA MISTURA SULFONÍTRICA E DA ÁGUA RÉGIA:

Reações que Ocorrem na Formação da Água Régia.

HNO3   +   3 HCl      =   NOCl  + Cl2  + 2  H2O  cloreto de nitrosila mais cloro.

Alguns autores propõe que o cloro está na forma de “cloro nascente“, NESBITT, C.C.; HENDRIX, J.J. (Orientador) “A Study of the Chlorination of Gold.” , Tese de Doutorado en Filosofia, Área de Concentração Engenharia Metalúrgica, Universidade de Nevada, Reno, Nevada , EUA (1990).   2 radicais de cloro, Cl• , com életron desemparelhado. Outros Autores propõe que o intermediário seja um cátion clorônio, Cl+ . LEVCHENKO, V.; GLESSI, C.; OIEN-ODEGAARD Dalton Trans.49, 3473 (2020).

Reações que Ocorrem na Formação da Mistura Sulfonítrica.

2 HNO3   +    H2SO4      =     (NO2)2SO4  +   2 H2O  forma-se sulfato de nitrônio

Formação dos sais de nitrônio, veja: GODDARD, D.R.; HUGUES, E.D.; INGOLD, C.K. J. Chem. Soc. 2559 (1950). Vários artigos sobre sais de nitrônio.

 11. SUJEIRA DE CARVÃO ADERIDO:

Material carbonizado, carvão adere fortemente a metais, vidro e porcelana.  Não só na vidraria de laboratório. Mesmo em panelas de cozinha. Veja Item D, neste Artigo. e Item 4, neste.

Por que isso acontece? Porque carvão é composto por carbono, que é semelhante ao silício e tem afinidade química por alguns metais, como o alumínio e o ferro. De fato, fuligem de óleo serve para enegrecer alumínio. Ora, vidro e porcelana contém silício, portanto, o carvão vai grudar bem forte.

Como resolver? Coloque dentro da vidraria, ou da cápsula de porcelana, bastante bicarbonato de sódio e água. Deixe  de molho, ou aqueça.

O bicarbonato vai formar gás carbônico, que se intercala entre a vidraria ou a porcelana, soltando fácilmente todo o carvão aderido. Funciona com utensílios de cozinha, mas também com a vidraria, cápsulas e cadinhos. Comparar com os links: 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43,44, 45.

 

 

 

 

 

 

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