História das Vidrarias e dos Utensílios no Laboratório Químico.

Vidrarias Minhas.
Algumas Vidrarias de Laboratório, Antigas, Minhas. Foto: Câmera Digital Kodak Easyshare C183.

 

 

 

 

 

 

 

 

Autoria: Alberto Federman Neto, AFNTECH.

Atualizado e ampliado em: 26 de Maio de 2020.

1. INTRODUÇÃO:

Neste Artigo, um aspecto da História da Ciência, não tão abordado na Internet e nem Literatura.

Trata-se da História das vidrarias e alguns outros aparelhos e utensílios usados nos laboratórios de Química e de Ciências.

Nunca se perguntaram quem inventou, por exemplo, a proveta que você usou na aula de Ciências? Vamos a nossa História…

A Imagem que ilustra este Artigo, São antigas vidrarias de uso particular, minhas. De cima para baixo, da esquerda para a direita:

Balão de fundo chato, (frasco de Florence) de 500 ml, de vidro neutro (anos 50); Erlenmeyer de vidro alcalino, marca VG, Brasil, de 250 ml (1971); Erlenmeyer de 250 ml, de vidro borossilicato, Vidrolabor (1990). Erlenmeyer de vidro borossilicato, Duran 50, Schott Mainz, Alemanha, da década de 60; Balão Volumétrico de 100 ml, marca HERKA Maatkolf, Alemanha, dos anos 70; 4 frascos Erlenmeyer, de vidro borossilicato, marca Duran Schott, Alemanha, 25 ml, dos anos 80; frasco Erlenmeyer, 50 ml, marca Duran Schott. Alemanha, dos anos 80; Balão de fundo chato, de vidro borossilicato, 250 ml, marca Corning USA, dos anos 90; Balão de fundo chato, 50 ml, vidro borossilicato Jena marca Schott & Gen, Mainz, Alemanha, dos anos 30; Balão de fundo chato,  100 ml, de vidro alcalino, marca VG, Brasil (1971); Frasco Erlenmeyer de 100 ml, marca Duran Schott, Alemanha, dos anos 80.

Aqui uma preferência pessoal minha. Há muito boa vidraria nacional de laboratório (Specialglass, Hermex, Labor Quimi, Quimividros, Qualividros, Global GlassSatelit, CELM,   IVM, Plenalab, Prolab, Reallab , Laborglass, PlenaLab, PHOXCAALCAQ, RBR etc…)  atualmente, e internacional, inclusive Chinesa. Antigamente, havia boas e ruins.  Mas para mim, nada ainda superou o acabamento, a qualidade e a durabilidade da vidraria química Alemã. Veja: Assistent, Duran, Schott, Normag, Hirschmann, Witeg, DWK, Poulten & Graf, Isolab, Eulab, Kimble, Bucher etc…

Vamos ver a História das vidrarias de laboratório.

2. MATERIAIS, GRÊS, VIDRO E PORCELANA.

Materiais usados para fazer vidrarias de laboratório. Grês, vidro e porcelana.

No início, praticamente todos os aparelhos do laboratório alquímico , pelo menos dos árabes, indianos e europeus, eram feitos de grês, cerâmica de barro não vitrificado.

O vidro se supõe, é descoberta  dos Sumerianos, na Mesopotâmia, ou dos Egípcios, por volta de 4000 a 3600 A.C. Link 15, 16, 17, 18. O Filósofo Natural e  Historiador romano Plínio, o Velho, porém, atribui a descoberta do vidro aos Fenícios, por volta de 5000 A.C., observando vidro vulcânico natural, Obsidiana. Links: 19, 20 , 21.

Inicialmente feito por fusão de areia pura, ou de Obsidiana, o vitro não era transparente, como o conhecemos hoje.

No século I, os romanos descobririam o vidro transparente, comum, alcalino, vidro de garrafa, que que seria usado nos vitrais das igrejas, nos séculos XIII e XIV. Artesanal, era vidro comum, alcalino, de janela, ou de garrafa, muitas vêzes, colorido por óxidos metálicos.

Era feito de areia, carbonato de sódio e cal, as vezes, clareado com salitre, sal ou sulfato de sódio.

Havia vidro na Alquimia Islâmica, mas era caro. O vidro foi depois   industrializado no século XV pelo vidreiro Italiano, Veneziano, Angelo Barovier. Link 22. Esse vidro se chamava “Cristallo“, e era feito de pó de quartzo, invés de areia, e soda (carbonato de sódio) e clareado com sais de manganês.

Ele deriva do tradicional vidro de Murano, 1291, vidro Veneziano, Itália, artesanal, mas esse era feito de areia, e não de pó de quartzo.

Aparelhos de laboratório chegaram a ser feitos de vidro comum,  alcalino.

Outros tipos de vidro, que surgiram depois. NASCIMENTO, M.L.F. World Pat. Inf. 38, 50 (2014).

Vidro neutro, Link 22, não leva carbonato de sódio, e sim óxido de alumínio. Eu tenho vidrarias antigas, de vidro neutro.

Em 1879, o Químico Alemão Friedich Otto Schott inventou um vidro ótico de lítio, destinado a substituir o vidro ótico Flint (com composição semelhante ao vidro, cristal de chumbo, o Cristal da Bohêmia) link 29, e o vidro ótico Crown, um vidro alcalino onde o carbonato de sódio era substituído pelo de potássio.

Alguns anos depois, entre 1884-1889, ele inventaria o vidro borossilicato. O primeiro vidro borossilicato se chamava “Vidro Jena” e era destinado a ser vidro ótico, para lentes, mas foi usado também para fazer vidraria de laboratório. Era composto de bórax,  carbonato de sódio areia, óxidos de zinco, alumínio e magnésio.

A  fórmula moderna do vidro borossilicato é também devido a Schott, 1893, e se chamou  após 1938-1943, vidro Duran. É composto de areia, carbonato de sódio, bórax e alumina. A última modernização da fórmula, é o vidro Duran 3.3, de 2005, da Companhia Schott AGGrupo DURAN, Alemanha. Normas: ISO 3585 (1998). ISO-DIN 3585 (2017). DIN ISO 3585 (1999).

O Pyrex é uma marca e patente, de 1908-1915,  sucessor do vidro Nonex, modificação americana de vidro borossilicato, da Corning Inc., BARBER, C. (2015). Link 27.

Assim, muito embora “vidro Pyrex” tenha se tornado o sinônimo de vidro borossilicato, cumpre salientar que a invenção é Alemã, e não Americana, e bem mais antiga do que o Pyrex.

Ressaltando e detalhando, o vidro borossilicato Americano é oPyrex®, uma marca registrada da Corning Inc., EUA, em 1915. Deriva do vidro borossilicato Durex, de 1908, do Químico Americano Eugene Cornelius Sullivan. SULLIVAN, E.C.; TAYLOR, W.C. Patente Americana, US1304623A (1919).

Mas  o vidro borossilicato foi inventado antes, em 1887, pelo Químico e Vidreiro Alemão Friedich Otto Schott, Link 14, registrada com o nome de vidroDuran®” Link 10. 11. 12. 13. Especialmente para fazer vidrarias de laboratório. Marca da Schott AG, Alemanha. Ele inventou também o vidro borossilicato ótico, para lentes, chamado “Jena“.

Uma modificação de borossilicato, também da Schott, foi o vidro ®Fiolax, hoje usado para embalagens farmacêuticas, mas nos anos 70, era muito usado para vidrarias de laboratório.

De fato hoje, o vidro “Duran” é o equivalente Europeu do Pyrex.

Atualmente, exceto nos tubos de ensaio, links: 28, 29, 30 , 31, e funis, 32, 33, 34, e placas de petri, o vidro borossilicato praticamente substituiu o vidro alcalino e o vidro neutro, nas vidrarias de laboratório. Mas ainda tenho várias vidrarias antigas de vidros alcalino e neutro.

Eventualmente, para casos especiais, como altas temperaturas, a vidraria pode ser feita de cristal de quartzo fundido, mas é cara para uso corrente.

A porcelana é usada em Química, para fazer cadinhos, cápsulas e outros utensílios que precisam resistir a temperaturas mais altas.

A porcelana foi inventada pelos chinêses, no séculos VII. Ou VI, não se sabe ao certo. Foi levada para a Europa, por Marco Polo.  Composta originalmente de caulim e feldspato.

Na Itália, foi modificada,  ou imitada, após 1500, no século XVI, inicialmente usando argila e vidro . Depois com adição de argila e pó de quartzo.WILLIANS, A. “The Sword and the Cucible.” Editora Brill, Leiden Holanda, e Boston, EUA. (2012).

Um dos muitos que modificaram as fórmulas chinesas das porcelanas, teria sido o Filósofo  e Alquimista Italiano Marcilio Ficino.

Mas a porcelana italiana era mais mole do que a chinêsa.  Os franceses desenvolveram uma porcelana, sem caulim, que chamavamPorcelaine Tendre” . Também existia a faiança, uma porcelana mole de potassa, areia, feldspato e argila, vitrificada com óxido de estanho.

Mas a faiança e a porcelana antiga, não eram resistentes o suficiente para o uso em laboratório, pelos Alquimistas.

Procurando descobrir a composição verdadeira da porcelana chinêsa, e para fazer materiais mais resistentes para os cadinhos, o Alquimista Alemão Johann Friedrich Bottger, inventou a porcelana dura, em 1708. e construiu uma fábrica de porcelana, a Meissenem 1710. Mas Bottger teria se baseado na fórmula de 1702do Médico e Alquimista Alemão, Ehrenfried Walther von Tschirnhaus,  e este teria realmente inventado a porcelana.

Esta peça de coleção é um antigo cadinho original industrializado por Bottger, de 1718.

A porcelana foi muito industrializada e disseminada na Europa, após o século XVIII. OWEN, H.; CHAMPION, R. (Revisor), “Two Centuries of Ceramic Art in Bristol. A History of the Manufacture of the True Porcelain.” Editora: Bell and Daudy, Londres, Inglaterra (1873).

Os cadinhos existem desde a época pré Alquimia,  usados em Metalurgia, e originalmente eram de metal ou de grês, antes de se usar a porcelana.

A porcelana moderna é composta de quartzo, caulim, feldspato e argila.

3. FORNOS, GÁS E AQUECIMENTO.

Como vimos, quase todos os aparelhos que os Alquimistas usavam, eram de grês.

Embora aparelhos de vidro já apareçam ocasionalmente entre os Alquimistas Árabes e Persas, séculos VII e VIII, vidro era ainda  muito caro e acessível somente aos Alquimistas ricos, pelo menos até o século XVII.   PAIRÓ, N.S Ens. Cienc. 33, 225 (2015).

Por isso se usava muito mais a cerâmica de argila, grês. MOORHOUSE, S. et al. “Medieval Distilling Apparatus of Glass and Pottery.” (1972).

Os Alquimistas Chineses usavam fornos de plataforma. A plataforma é que era aquecida, esquentava o ar dentro do forno e esse ar aquecia o experimento. Não havia contato direto entre o aparelho de grês e o fogo. Isso era feito para controlar o aquecimento, e evitar que os vasos de grês rachassem. BARNES, W.H. J. Chem. Educ. 13, 453 (1936). PARTINGTON, J.R. J. Chem. Educ. 128, 1074 (1931).

Já os Gregos esquentavam os aparelhos usando fornos de carvão, e controlavam a temperatura usando Banho Maria (pelo menos após a invenção do mesmo, pela Alquimista Grega, que viveu no Egito, Maria, a Judia). PARTINGTON, J.R. Nature, 128, 118 (1931). TAYLOR, F.S. Ambix 1, 30 (1937).

Fornos e fogareiros a carvão foram usados para aquecer reações químicas, práticamente até o século XIX. Em um exemplo, páginas de um antigo livro meu, que pertenceu a meu Pai e meu Avô. ENGEL, R. “Traité Élémentaire de Chemie.” Editora: Librairie J.B Bailliére et Fils., Paris, França, Págs  244 e 254 (1896).

Note que ainda não se usava sempre, no século XIX,  água encanada, nem gás, embora já existessem, mas só em alguns laboratórios. Na Página 244, um fogareiro  a gás é usado, mas na página 254, não.

Usando Forno de Carvão.
Preparação de Ácido Nítrico. Usando Forno de Carvão. Fonte da Imagem: Foto, ENGEL, R. Loc Cit.

 

Usando Forno a Gás.
Preparação de Protóxido de Nitrogênio, usando Fogareiro a Gás. ENGEL, R. Loc Cit.

 

 

 

 

 

 

Você pode adquirir um exemplar desse livro, a custo baixo ou moderado, na estante virtual.

Note que ainda não se usa correntemente, sempre, água encanada, nem gás.

O gás se tornaria rotina, nos laboratórios químicos, só após a invenção do “Bico de Bunsen“, pelo Químico Alemão Robert Wilhelm Eberhard Bunsen . BUNSEN, R.; ROSCOE, H. Pogg. Ann. 100, 84 (1857). Republicado em: BUNSEN, R.; ROSCOE, H. Ann. Physik 176, 47 (1857). Existem muitas modificações do Bico de Bunsen, KOHN, M. J. Chem. Educ. 27, 514 (1950).

As principais modificações, os Bicos de Teclu e de Meker. Respectivamente do Químico Romeno Nikolae Teclu, e do  Engenheiro Químico Francês Georges Méker. TECLU, N. J. Prakt. Chem. 45, 281 (1892). MEKER, G. J. Phys. Theor. Appl. 4, 348 (1905). JENSEN, W.B J. Chem. Educ. 86, 1362 (2009). E o Bico de Tirril. TIRRIL, O. Patente Americana US220736A (1879).

Veja as figuras. Bicos de Bunsen, MekerTirril e Teclu. O Bico Fisher é uma modificação do Bico Meker, da Fisher Scientific.  o Bico de Tirril é um Bico de Bunsen onde tanto a entrada de gás, como a de ar, são reguláveis.

Aqui uma raridade, da minha coleção. Pertenceu ao meu Avô, Alberto Federman. Outro Link. É um Bico de Teclu, de latão, dos anos 20. Por ser muito antigo e  estar desgastado, já não dá mais regulagem, mas é uma peça histórica.

Velho Bico de Teflu.
Um Antigo Bico de Teflu (Uma Modificação de Bico de Bunsen), de Latão. Anos 20. Pertenceu a Meu Avô.

4. PELICANOS E OUTROS APARELHOS.

Alguns outros aparelhos alquímicos merecem destaque.

O pelicano era um vaso de grês, com duas alças ocas. o vapor se condensava nessas alças e voltava para o vaso. Funcionava como se fosse um “condensador de refluxo”.

Aqui a imagem de um pelicano do século XVI:

Um Pelicano Alquímico.
Um Pelicano. Aparelho Alquímico. Do Século XVI. Fonte da Imagem:Welcome Collection. Licença: Creative Commons, Attribution 4.0 International (CC BY 4.0).

O Pelicano era muito usado pelos Alquimistas Europeus, Fonte, McLEAN, ADAM, “The Alchemy Web Site.” . Vejam a Obra do Filósofo Natural e Alquimista Italiano Giovanni Battista Della Porta, “De Distillatione Libris, IX.” (1608). Link 18, 19. Mas o Pelicano já aparece e era conhecido dos muito antigos Alquimistas Chineses e Indianos.

Aqui neste linkaparece uma representação pictórica e simbólica do Pelicano, tirada da obra do Alquimista Inglês George Ripley.The Compound of Alchemy.” (1471). Links: 20, 21, 22.

5. BALÕES DE REAÇÃO.

O “balão” onde eram feitos os experimentos dos Alquimistas, geralmente não era esférico, como os de hoje, e sim tinha um formato ovóide, por causa do simbolismo do ovo, Vida, ou criação. SHEPPARD, H.J. Ambix, 6, 140 (1958). Era o “Ovo Filosófico”. ATWOOD, M.A. “Hermetic Philosophy and Alchemy.” (1960). CRISCIANI, C. Bull. Phil. Mediev. 38, 9 (1996). REED, J. “From Alchemy to Chemistry.” , Pág 35 (1995). Uma representação pictórica do “Ovo Filosófico”.

Nesta Figura, fonte da imagem é “Levity, the Alchemy Web Site“), o aparelho indicado como “R” é um “Ovo Filosófico”. A Figura foi extraída de uma Obra do Médico e Alquimista Alemão Andreas Libavius, descobridor do cloreto de estanho (IV) (Licor Fumegante de Libavius). Alchymia, (1597). Libavius é considerado um “modernizador” das operações laboratoriais alquímicas. Link 1. 2. 3. 4. 5. HANNAWAY, O. Isis, 77, 584 (1986).

Aparelhos Alquímicos.
Aparelhos de Laboratório Alquímico, usados por Andreas Libavius. Fonte da Imagem: Levity, the Alchemy Web Site

Observe que além do “Ovo Filosófico”, aparecem moldes, conchas para metal derretido, tesoura para cortar  chapas de metais, decantadores e filtros. Muito diferentes dos atuais, mas funcionais.

Libavius, Alchymia, PDF. Aqui pode ver outros “Ovos Filosóficos” e outros aparelhos,  extraídos da reedição de 1606, de Alchymia de Libavius. Edição de 1606, na forma de E-Book. Outro Link.

Nesta imagem, em A, Aparece outro “Ovo Filosófico”. Fonte da Imagem: Levity, The Alchemy Web Site. Tirado da Obra do Médico e Alquimista Inglês John French. FRENCH, J. “The Art  of Distillation.” (1651). Link 17. Alguns autores reportam que French teria se inspirado na obra do Alquimista Alemão Hieronymus Brunschwig. De 1512. Veja o Prólogo deste Artigo.

Na mesma figura, pode-se ver destiladores, sublimadores, e até um pelicano (Veja Item 4), todos feitos de grês.

Junto de vários balões ovóides, uma modificação esférica do “Ovo Filosófico” já aparece na Obra (veja (“Vessels“) Pseudo-Geber, atribuída a ele, que viveu no século VII. Edição de 1678. HAYYAN, J.I (Geber); RUSSEL, R. (Coletor); JAMES, T. (Editor) “Geber Works” (1678). Outra obra de Geber.

Também aparece uma modificação, já praticamente parecendo um balão de reação atual, na Alquimia Hebraica.

Também balões esféricos (além de “Ovo Filosófico“) foram usados por BECHER, citado no Item 8, no século XVII, veja Link do PDF, Pág 28. Figura 45, é “Ovo Filosófico”, mas figuras 48, 49 e 50 já são balões esféricos.

No século XVII, oa aparelhos são ainda de grês, mas já existe o balão esférico. Veja nesta figura:

Aparelhos de Laboratório Alquímico.
Aparelhos do Laboratório Alquímico, no Século XVII. Fonte da Imagem: Wikimedia Commons.

A Figura citada na Wikimedia Commons, é tirada da Obra do Médico Inglês Charles John Samuel Thompson (1932): THOMPSON, C.J.S.” The Lure and Romance of Alchemy.” Editor: G.G. Harrap & Company, Ltd., Londres, Inglaterra, Pág 119 (1932).

Veja que em 3, 8 e 9, ainda são “Ovos Filosóficos”, mas em 4, 6, 10 e 13, já aparecem balões esféricos, que são antecessores doa atuais balões de fundo redondo ou chato. A montagem em 3, o “Ovo Filosófico” com o cone encima, se chamava “Sino” ou “Sino do Ovo”, veja símbolo alquímico “Eggbells, e era usada para aquecimento. No cone, se colocava água fria. Em 17, vê-se um disco de madeira, para pousar o “Ovo Filosófico”, que  lembra os suportes para balão de fundo chato atuais.

Lavoisier, no século XVIII, é um dos primeiros a popularizar, ou pelo menos a usar muito, aparelhos químicos em vidro, vidraria. De fato, recomendava seu uso.  Era ainda vidro alcalino, de sódio, e às vezes, até quartzo fundido. Link 38. Em seu Histórico “Traité Élémentaire de Chimie.“, Seu laboratório era extremamente sofisticado para a época, veja a figura. BADILESCU, S. Chem. Educ. 6, 114 (2001).

LAVOISIER, A.L. “Traité Élémentaire de Chimie.” Editora: Chez Couchet, Paris, França, Volume 1 e Volume 2 (1789). Note que ele, embora ainda use “Ovo Filosófico” (Vol 2, Pág 352, Figura 14), Link 36,   já desenvolve balões de fundo redondo e chato, e de formato esférico, um pouco parecidos com os atuais. (Vol 2, Pág 350, Figuras 14 e 16) Link 37. O balão de fundo chato é bem parecido, e o de fundo redondo tem um gargalo bem mais longo que os atuais. As ilustrações e traduções para Lavoisier eram feitas por sua esposa, Link 35 , excepcional desenhista e muita culta.

Observe a imagem. veja figuras 14 e 16. Já parecem bastante com os balões de fundo chato e redondo atuais. Fonte da Imagem, BNF, Bibliothèque Nationale de France, Gallica. E em outro Link.

Lavoisier Ilustrações.
Imagem Digitalizada de uma Página do Traité Élémentaire de Chemie, de Lavoisier. Ilustração de Madame Lavoisier (1789).

Também observe a Figura 6, desta imagem. Veja que nas obras de Lavoisier, balões esféricos  já aparecem, mas  quando o fundo é redondo, o gargalo bem mais comprido que nos atuais balões. Os balões, portanto, existiam já ao tempo de Lavoisier. VIEL, C. Rev. Hist. Pharm. 363, 277 (2009). Ver outro link. Projeto Gutenberg, LAVOISIER, A. “Traité Élémentaire de Chemie.” “Planches II et III, Figures 14, 16, 6

Nesta gravura, do século XVII, aparecem balões ovóides e também , esféricos. No século XVIII, balões parecidos com os atuais, já são muito usados. Também aparecem em uma antiga Enciclopédia,  DIDEROT, M.; ALEMBERT, D. “Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers.“,Paris, França (1751-1784). Escrita por vários Autores, mas iniciada pelo Filósofo e Escritor Francês Denis Diderot, e pelo Filósofo e Matemático Francês Jean Le Rond D’Alembert.

Nesta Figura, de Diderot e Alembert, você pode ver balões esféricos e ovóides.

Os balões atuais são de fundo redondo e de fundo chato. Quando tem gargalo longo e estreito com ou sem virola, como este, são chamados “Frascos de Florence“, Outro Link, em homenagem à cidade de Florença, Itália. Não confundir com “Frasco Florentino” ou Vaso Florentino” que é um frasco usado para recolher e separar essências destiladas. ENGEL, R. Loc Cit., pág 360 (1896).

Vaso Florentino.
Frasco ou Vaso Florentino, Para Separar Essências de Água. Fonte da Imagem: Modeverre, França.

Um balão moderno, meu. De fundo redondo e paredes grossas, em vidro bossilicato atual, 3.3. Marca Qualividros, Brasil. Novo (2020), 2000 ml. Tipo deste. É um balão muito bom, de boa qualidade e pesado. O suporte azul é artesanal, eu que fiz, veja Item 9, neste Artigo.

Balão de Fundo Redondo e Suporte,
Meu Balão de Fundo Redondo, de 2000 ml, de Boa Qualidade, Marca Qualividros, Brasil. (2020).

Mais dois balões meus, antigos. A Esquerda, balão de fundo chato de 100 ml, marca VG, Brasil, de vidro alcalino de sódio (1971), e a direita, balão de fundo chato, de 50 ml, de vidro borossilicato Jena, marca Schott & Gen, Alemanha (1975). É um balão de excelente qualidade.

Balões Antigos.
Dois Balões Antigos de Minha Coleção. Veja Texto.

6. DESTILADORES.

Para a destilação, há aparelhagens  alquímicas clássicas.  A destilação era conhecida até antes da Alquimia Bizantina e/ou Européia.

Acredita-se que foi inventada na Mesopotâmia (onde depois seria a Babilônia) entre os Sumerianos, a cerca de 5000 anos. GÓRAK, A.; SORENSEN, E. “Distillation, Fundamental and Principals.” (2014). Link 23. As tábuas de argila de Uruk, em escrita cuneiforme, já descrevem Alquimia e Destilação. E os Sumerianos a usavam em Medicina.

Embora lá existisse entre os Chineses, Indianos, Gregos, Egípcios, Romanos e Hebreus (Kaballah Mineralis) Links: 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, oficialmente, com esse nome, a Alquimia (do Árabe, Al-Kīmiyā) é Árabe, Bizantina.

A destilação também aparece na obra “As Doze Chaves da Filosofia.” do Alquimista Alemão Basile Valentin, A obra é pictórica, imagens, e foi muito citada e comentada. Links: 37, 38, tradução francesa, de 1741. “Les Douze Clefs de Philosophie”.

Dizem os Historiadores, provavelmente era um pseudônimo, por causa de perseguição, pois ele era um monge Beneditino. No século XVII, aventou-se a Hipótese de que Basile Valentin fosse o Alquimista Alemão Johann Jorge Thoide. Foi muito traduzido e estudado por vários outros Alquimistas e Cientistas. VALENTINI, B. “Cvrrus Trivmphallis Antimonii” “A Carruagem Triunfal do Antimônio.” Tradução Livre. editado em 1646. Outros Links: 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8. Tradução da “Carruagem do Antimônio” para o AlemãoMARR, J.H. “Aspectos Históricos do Ensino Superior de Química” Scient. Stud. 2, 33, (2004).

Alambique. O Filósofo  e Alquimista Grego Zózimo de Panopolisatribui a Maria, a Judia a invenção do alambique, mas ela usou uma aparelhagem tipo a das destilações da Mesopotâmia e do Egito.

Ela  inventou foi a destilação fracionada, o “Tribikos“, Link 39. O primeiro coletor de frações para isolar os destilados puros. Ela foi uma Alquimista Grega que viveu no Egito, na época de Aristóteles, cerca de 380 anos a.C.

O alambique  para grandes volumes, e a retorta, para laboratório, foram inventados no século VII, d.C, para melhorar a destilação, por um Alquimista Árabe, Abū Mūsā Jābir ibn Hayyān, Geber. Link 40.

A retorta foi muito usada pelos Alquimistas e Químicos, até o advento dos modernos condensadores. Hoje é obsoleta, mas considerada um objeto interessante e simbólico da Química, por isso, ainda é fabricada. Veja duas retortas do século XIX.

O primeiro destilador moderno foi desenvolvido pelo Médico e Alquimista Catalão Arnaud de Villeneuve. (1286).

A destilação em larga escala foi aperfeiçoada pelo Médico, Cirugião, Botânico e Alquimista Alemão Hieronymus Brunschwig . Veja o Prólogo deste meu Artigo. Por exemplo, o trabalho de Brunschwig , por volta de 1500-1512, já  contém uma imagem de uma destilação em banho maria.

Também o  Médico e Alquimista Inglês John French aperfeiçoou a destilação. FRENCH, J. “The Art of Distillation” , Book I , Book II,  Books: I-VI (1651). Link 41, 42 , 4344 45, 46.

No século XVII, destiladores de vidro já existem. Por exemplo, veja a obra do Químico Francês Jean Béquin. BÉQUIN, J. “Elemens de Chymie.” Editor: Mathieu Le Maistre, Paris, França (1620).

7. TUBO DE ENSAIO:

Alguns Autores atribuem ao  Médico e Químico Sueco Jons Jacob Berzelius (1814), e ao Físico e Químico Inglês Michael Faraday a invenção do tubo de ensaio. Isso, no século XIX. OLIVEIRA, I.T. et al. Quím. Nova, 41, 933 (2018).

Berzelius usou tubos que suportavam aquecimento,  “tubos de ebulição” e Faraday, sugeriu que pequenos tubos de vidro seriam úteis para fazer testes e reações, isso, em sua obra; FARADAY, M. “Chemical Manipulation.” (1827). Esta é a segunda edição, de 1831: FARADAY, M.;  MURRAY, J. (Editor), Londres, Inglaterra, Pág 10 (1831). Edição de (1842).

Aqui, observe que em sua Obra, na tradução francesa, Berzelius usa muito tubos de vidro, fechados em uma das pontas… já são tipo “tubos de ensaio”.

Link para o Livro: BERZELIUS, J.J.; JOURDAN, A.J.; ESSLINGER, L. (Tradutores) “Traité de Chemie.” Editoras: Firmin Didot e Fréres et J.B Bailliére, Paris, França. Distrubuidores: Librairie Medicale Française et Librairie Parisienne, Bruxelas, Bélgica et J.B Bailliére, Londres, Inglaterra. Parte 1, Vol. 3, Págs. 7, 339, 341, 348, 357, 361 (1831).

Mas saliento que o tubo de ensaio pode ser bem mais antigo.

Por exemplo, entre 1814 e 1819, o tubo de ensaio já parece ser de uso corrente, por vários Químicos famosos, inclusive Berzelius. Veja coletânea de THOMSON, T.; BALDWIN, R. (Editor), “Annals of Philosophy.“, Londres, Inglaterra,  1a Ed., Vol II, Págs: 10, 24, 36 e 57 (I814), 2a Ed, (1819). BERZELIUS, J.J. “Larbok i Kemien.” Estocolmo, Suécia (1808). Para mais sobre Berzelius, veja este artigo.

Outros exemplos, Lavoisier já os usaria, no século XVIII. Links 5, 6, LAVOISIER, A.L.; CUCHET, C. (Editor) “Traité Élémentaire de Chemie.”, Paris, França (1789).

O Químico Inglês Humphry Davy usou tubos de ensaio, já em 1812-1816. HUMPHRY DAVY, “Elements of Chemical Philosophy.“, Philadelphia, USA. Vol. 1, Parte 1, Pág 158 (1812). DAVY, H. Phil. Mag. 48, 24 (1816). DAVY, H.  “Elements of Chemical Philosophy.” Editora: Bradford & Inskeep, Philadelphia & New York, USA, Parte 1, Vol. 1, (1812).

Um Mineralogista Francês, cita o tubo de ensaio, em 1879. JANNETTAZ, M.E. Bull. Soc. Min. France, 2, 191 (1879). O Médico Francês  Jean Prideaux, em 1818. PRIDEAUX, J. Lond. Med. Phys. J. 40, 185 (1818). MacSweeny, em 1819. MacSWEENY, J. Phil. Mag. 54, 141 (1819).

O tubo de ensaio parece ter sido, na  realidade, inventado pelo  adolescente Inglês Jhon Flamsteed . 1646 a 1719. Link 1. 2. Seu Pai tinha uma empresa de malte e queria frascos para guardar pequenas quantidades de produtos químicos. E Flamesteed teve a ideia, inventou o tubo de ensaio, o que ajudou seu Pai.

Na idade adulta, se tornaria um famoso astrônomo,  Link 6. BAILY, F. “An Account of Revd. John Flamsteed.” Londres, Inglaterra (1835). Um dos primeiros a mapear constelações e estrelas, e observou o planeta Urano, em 1690, mas o confundiu com uma estrela.

Nos dias atuais os tubos de ensaio são fabricados em diversos tamanhos, padronizados internacionalmente, veja Item 7, deste Artigo. Antigamente feitos de vidro comum, de sódio, que ainda existem, Link 7, mas hoje principalmente  são de vidro neutro , Link 8, ou de vidro de borossilicato. Link 9.

8. COPO BÉQUER:

Todos os Químicos conhecem o  famoso Copo de Béquer, ou Becker. O recipiente mais usado no laboratório químico. Figura. Geralmente de vidro, as vezes, de plástico, em vários tamanhos, graduado ou não.

O copo Béquer existe a muito tempo.

A primeira menção a um “Beaker”, com esse nome, usado como copo de vinho, parece ser de William Shakespeare, Dramaturgo Inglês, em Hamlet, 1601. DAVIES, T. “….Critical Observations on Shakespeare….” Londres, Inglaterra, Vol III, Pág 14 (1784) .

Em Química, por exemplo, o béquer é citado em 1893. KEBLER, L.F. Am. J. Pharm. 63, 585 (1893). Mesmo mais de cem anos antes. Um béquer de metal (prata), já é citado por  BECKMANN, J.; JOHSTON, W. (Tradutor), “A History of Inventions ans Discoveries.” Editor, J. Bell, Londres, Inglaterra, Vol 1, Pág. 42 (1797). O Béquer químico, Becker-Beaker, também já é citado no dicionário Alemão-Inglês de PRAGER, J.C. “Neueingerichtetes Englisches Wörterbuch.”, tradução livre do título: “Novo Dicionário Oficial de Inglês.“, Editor, George Otto, Leipzig, Alemanha. Vol 2, Pág. 63 (1760). O Físico e Químico Inglês William Crookes, também cita o béquer, em 1874. CROOKES, W. Chem. News, 39 (1874).

Na enciclopédia de Diderot e Alembert, loc cit, Item 5, DIDEROT, M.; ALEMBERT, D. “Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers.“,Paris, França (1751-1784). Nesta Figura, você pode ver o frasco número 38, que já parece um béquer.

Por muito anos a invenção foi atribuída ao Alquimista Alemão Johann Joachim Becher. Becher devia usá-lo, mas Historiadores dizem que ele existe, na forma de um copo de vinho sem bico, Ambikos, desde os tempos do Filósofos e Alquimistas Gregos.

De fato, examinemos uma  obras de Becher, em Latim. Becher descreve e ilustra os apetrechos de laboratório que usava, todos de grês ou metal. No livro, aparece um aparelho, “Pyxis Cementatoria.“,(tradução automática, “abaixador de cimento“), para fazer ou umidecer cimento, que parece um béquer com tampa, mas não é. BECKER, J.J.; TAUBERI, J.D (Editor), ROTH-SCHOLTZ, F. (Republicação) “Opuscula Chymica Rariora…“. Tradução automática do título: “Brochura Química Rara.”. Editora: Norimberg & Altorfi, Nuremberg, Alemanha, Págs 28 e 29, Edição de (1719). Versão em PDF.

Já falei de Becher neste Artigo. Outra obra de Becher, a principal dele:  BECHER, J.J.; GLEDITSCH, J.L. (Editor) “Physicae Subterraneae.”. O livro foi escrito em 1689, mas esta é edição de (1738). Vol. 1 e Vol 2.

Mas o béquer não foi inventado por Becher. Sim, o termo Béquer vem do termo em Latim Medieval Bicarius, que significa copo. PORTO, P.A.; VANIN, J.A. Quím Nova, 16,69 (1993). OLIVEIRA, I.T. et al. Quím Nova, 41, 933 (2018).

Todos os frascos antigos da Alquimia e parecidos com o béquer. não tinham bico.

O béquer no formato moderno, com bico, como conhecemos hoje, se deve ao Químico, Editor, Livreiro e Vidreiro Inglês John Joseph Griffin , que montou uma emprêsa para fabricar vidraria de laboratório moderna, 1862. Por isso, o béquer moderno é chamado de Copo de Griffin.

O béquer alto (eu gosto e uso) moderno, é chamado de “Copo de Berzelius“. Encomendado pelo Químico Sueco Jons Jacob Berzelius ao vidreiro alemão Frantisek Kavalir, OLIVEIRA, I.T., Loc. Cit. Como os copos Griffin ainda não existiam, os copos de Berzelius originais, não tinham bico.Veja nesta foto,um antigo copo de Berzelius, sem bico, do século XIX.

Nestas imagens, novos copos  béquer tipo Griffin e tipo Berzelius.

CONTINUA, ARTIGO EM EXPANSÃO.

 

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