História dos Antissépticos e dos Desinfetantes.

Listerine
Antiga Garrafa do Antisséptico Listerine, 1895. Fonte da Imagem: History of Listerine.

Autoria: Alberto Federman Neto, AFNTECH.

Atualizado em: 30 de Outubro de 2019.

Este Artigo revisa a História dos Antissépticos, dos Enxaguatórios Bucais  (antigamente chamados Colutórios) e dos Desinfetantes.

1.  DA ANTIGUIDADE AOS MICRORGANISMOS. ELES PODEM CAUSAR DOENÇAS:

As doenças infecciosas são conhecidas desde a Antiguidade. Já eram reportadas por exemplo pelos Egípcios, Hebreus, Europeus, Africanos etc.. mas sua causa não era conhecida.

Muitas doenças infecciosas eram conhecidas na Antiguidade, mas algumas nem tinham o nome atual. Conhecia-se, por exemplo: a Sífilis (depois estudada por Fracastoro, veja abaixo); a Peste Bubônica, a Varíola, o Cólera, o Botulismo, o Carbúnculo, a Lepra (Hanseníase), Gangrena, Tétano etc… Óbviamente, algumas eram causadas por vírus, e não bactérias ou protozoários, mas sobre isso nada se sabia…

Cria-se que as doenças infecciosas, no geral eram causadas por “Miasmas“, ar ruim, vapores ou “Castigo de Deus“.

O primeiro que anteviu que  as doenças infecciosas podiam ser causadas por algo no ar, por mudanças de clima, ou por fatores vindos do ambiente. em resumo, por algo natural  externo, e vindo do ambiente, foi o Filósofo Grego Hipócrates da Tessália. Inicialmente, ele acreditava que algo do ar ou ambiente, se alojava “nas tripas”  ao nascer, e isso causava a doença , no futuro. Isso foi por volta de 254 A.C.

Ele é considerado o “Pai e o Patrono da Medicina”, pois foi ele quem separou a Medicina da Filosofia, além de suas Teorias serem muito inovadoras para a época.

BRACHMAN, P.S. Int. J. Epidem., 32, 684 (2003).  FERREIRA, L.A.P. Tese de Doutorado em Enfermagem, UFSC (2008). Contudo, foi o Filósofo Natural e Poeta Italiano Girolamo Fracastoro em 1546, na sua Obra “De Contagione et Contagiosis Morbis” Tradução Livre: “Sobre o Contágio e as Doenças Contagiosas”, quem propõe que as doenças infecciosas seriam causadas por “germes” (depois chamados “micróbios”) e teoriza os fenômenos do contágio. Esta é a Edição de 1550, por BACQUENOIS, Nicolas. Fracastoro estudou muito a Sífilis, e propôs o nome para a doença.  ECHEVERRIA, V.I. Hist. Ciênc. Saúde Manguinhos, 17, 877 (2010). 

Mas ver os “germes”, “micróbios”, microrganismos, só seria possível após a invenção do Microscópio. O primeiro aparelho que foi um microscópio, mas ainda rudimentar, foi construido pelo alemão Hans Lippershey , Mas os primeiros microscópios compostos foram fabricados pelo Ótico Holandês Hans e seu filho, Zacharias Jansen, em 1590.

O microscópio composto seria aperfeiçoado pelo  Filósofo Natural Inglês Robert Hooke, quase 100 anos depois. Com ele, descobriria as “células” dos seres vivos.  Ele também descobriu a estrutura da cortiça. Ele é o fundador da  Ciência da Microscopia, em sua obra fundamental, “Micrographia“. Projeto Gutemberg, 2005. ALMEIDA, A.V.; MAGALHÃES, F.O. Scienti. Stud. 8, 367 (2010). Os microscópios de Robert Hooke já parecem um pouco com os atuais, veja. MILLER, M. Microscópio (1999). O’DWYER, N.C. Proc. Eur. Soc. Aesth. 8, 354 (2016).

Falando em microscópio, o meu é um Coleman, Americano, modelo 16-A, igual a este.

É um microscópio simples, monocular, mas com recursos sofisticados, antigamente só achados em microscópios profissionais. Tem 3 Oculares, tipo Huygens, (Astrônomo Holandês Christaan Huygens) Revólver para 3 Objetivas, vem com quatro Objetivas acromáticas tipo Spencer, incluindo uma de imersão, Condensador tipo Abbe, parafusos macrométrico e micrométrico, iluminação com filtro, diafragma iris, platina móvel com Charriot  e escala Vernier. Link 2. (Matemático Francês Pierre Vernier) Aumento máximo: 1200 vezes.

Um microscópio do século XIX, bonito, dourado:

 

Microscopio
Um Microscópio do Século XIX. Fonte da Imagem: Antique Atlas.

J. Bras. Patol.  Med. Lab. 45 (2009). De forma independente, depois de 1670, trabalhando com um microscópio simples,  (Link 2) mas com uma lente única, muito aperfeiçoada, o Naturalista Holandês Antonie Phillipe Van Leeuwenhoek, descobriria os microrganismos (os chamou “micróbios“) , os espermatozoides, os organismos unicelulares e os glóbulos sanguineos. Microscópios do tipo dos dele são bem raros. FORD, B.J. Microscope, 63, 35 (2015). CABEZA, M.A. Aportaciones de Robert Hooke e Antoni Van Leeuwenhoek a la Teória Celular (2014).

Hoje se sabe que os antigos “micróbios” são as bactérias e os protozoários.

Desde cerca de 100 anos após Fracastoro, confirma-se que os microrganismos podem causar doenças, mas mesmo assim, quase nada era feito para evitar infecções, até Lister. PITT, D.; AUBIN, J.M. Can. J. Surg. 55, E8 (2012).

2.  GERAÇÃO ESPONTÂNEA E PASTEUR:

Pela época de Fracastoro, por volta de 1550, já se acreditava desde os tempos Link 2, de Aristóteles,  que os animais, incluindo os microrganismos, eram gerados espontaneamente, a partir da matéria inanimada. Teoria da Geração Espontânea.

A Teoria era amplamente aceita e inquestionável, para a época. Aceita por muitos Filósofos Naturais famosos, como o Holandês Jan Baptiste Van Helmont, (inventor da “Cuba D’Água”, e um dos primeiros que recolheu gases). Também o Médico e Anatomista Inglês William Harvey (descobridor da circulação fechada dos mamíferos e que o sangue circula por veias e artérias).

A Geração Espontânea começou a ser questionada após os experimentos (1668) do Médico Italiano Francesco RediLink 2. Quando o caldo de cultura era fervido, esterilizado, não se produziam mais microrganismos….

O Biologista Italiano Lazzaro Spalanzani acreditava que os seres vivos, microrganismos, é que carregavam uma “Força Vital”, destruída pela ebulição,  e em presença de minerais suficientes, podiam gerar mais microrganismos…..

A Geração Espontânea foi definitivamente derrubada pelo Químico Francês Louis Pasteur. 1859 a 1861. A esterilização, “Pasteurização” matava os microrganismos do ar, e só havendo contaminação por fator externo, é que se proliferavam mais microrganismos. PASTEUR, L. “Sur Les Corpuscules Organizés Qui Existant Dans LAtmosphère. (1861).

Apesar disso , contemporâneos de Pasteur não concordavam.  Apoiado nas ideias de Spallanzani e Redi, um Biologista Inglês, o Abade John Turbenville Needham, questionava os experimentos de Pasteur, porque dizia que a ebulição do caldo de cultura “matava a força vital” e por isso,  os microrganismos não surgiam no caldo esterilizado.

Também o Médico Francês Félix Archimède Pouchet, não acreditava em Pasteur e era adepto da Geração Espontânea. POUCHET, F.A. “Hétérogénie. Traité de la Génération Spontanée.” Tradução Livre do Autor do Blog: “Heterogenia. Tratado da Geração Espontânea.” Editora: J.B. Baillière et Fils, Paris, França (1859).

Mas de acordo com alguns autores modernos, os experimentos de Pasteur não seriam por si só , suficientes para derrubar definitivamente, na época, a geração espontânea. MARTINS, L.A.C.P. Fil. Hist. Biol. 4, 65 (2009). Não que ela seja verdadeita, a Teoria, mas os autores ressaltam os pontos nos quais Pouchet e Needham podiam questionar a Pasteur.

Pasteur estudou as fermentações, algumas doenças como a Hidrofobia, o que estragava os vinhos etc… Em um seu Artigo clássico, “Recherches Sur La Putrefáction.”, Pasteur confirma que os microrganismos podem causar infecções,  e doenças, e precisam ser evitados, mortos ou inativados. PASTEUR, L. Compt. Rend. Acad. Scienc., 56 ,  1189 (1863). Assim, foi ele quem definitivamente associou microrganismos a determinadas moléstias infecciosas.

Concordaram muitos, sobre microrganismos causarem doenças, após Pasteur, muitos cientistas, como o Bacteriologista Alemão Heinrich Hermann Robert Koch, descobridor do bacilo da tuberculose, o Médico Francês Pierre Paul Emile Roux,  do Bacilo da Difteria e o Bacteriologista Ucraniano Ilya Ilyich Mechnikov, que descobriu como os glóbulos brancos destruíam as bactérias, Fagocitose.

2.  LISTER E ASSEPSIA CIRÚRGICA. OS PRIMEIROS ANTISSÉPTICOS:

O Cirurgião Inglês Joseph Lister, havia lido os  clássicos trabalhos de Pasteur e reconhecera a presença dos microrganismos na Gangrena, e desconfiava, na Sepse. Por isso, resolveu limpar e esterilizar instrumentos, roupas cirúrgicas e o campo operatório.

Em 1867, pela primeira vez, ele usa um antisséptico cirúrgico. LISTER, J. Brit. Med. J. 2, 246 (1867), republicado por Clin. Orth. Rel. Res. 468 , 2012 (2010). LISTER, J. Lancet, 90, 353 (1867).

Ele usou um composto orgânico, o Fenol, chamado “ácido fênico” ou “ácido carbólico”. O primeiro antisséptico usado em cirurgias. Também era usado, na forma de vapor, para esterilizar os ambientes.

Assim, pode ser considerado o primeiro desinfetante. Quando eu era menino, nos anos 60, o ácido fênico ainda era usado em Farmácia.

Outro desinfetante, ainda hoje usado, é a base de sabão de Creosoto, cresóis (fenois metilados). Vocês conhecem, é a Creolina.

Por ter sido o primeiro antisséptico, o fenol foi usado como um padrão para testar antissépticos. Tipo “algo é mais ativo ou menos ativo que o fenol“. Se chamava “Coeficiente Fenólico“. Foi desenvolvido por RIDEAL, S.; WALKER, J.T.A. J. R. Sanit. Inst. 24, 424 (1902). TIMENETSKY, J.; ALTHERTHUM, F. Rev. Saúde. Publ. 23, 170 (1989).

Hoje tem importância apenas histórica, porque nem sempre funcionava com precisão. Exemplos: PHELLPS, E.D. Am. J. Pub. Healt. 3, 53 (1913). TILLEY, F.W. Am. J. Pub. Healt. 11, 513 (1921).

Se descobriu que o Fenol não tem ação antisséptica tão pronunciada, pelo menos não em solução diluída. Por exemplo, TAYLOR, H.D.; AUSTIN, J.H. J. Eur. Med. 27, 375 (1918).

De fato, os fenóis clorados e nitrados são antissépticos muito mais ativos que o próprio fenol.

Ácido pícrico (trinitrofenol) foi usado para tratar queimaduras, evitando infecções. Ainda se usa o Picrato de Butesin, onde o ácido pícrico está ligado a um anestésico local.

Nos anos 50 e 60, no Brasil, havia um desinfetante para instrumentos cirúrgicos, a base de paraclorofenol. Se chamava “Espadol“. Eu lembro, porque meu Pai, Médico, usava. Hoje, o Espadol existe na Argentina, mas é feito com cloroxilenol (fenol bismetilado e clorado).

Ocasionalmente, paraclorofenol ainda é usado como antisséptico. SILVA, E.J. N. L et cols. Rev. Bras. Odont. 69, 255 (2012). Assim como fenóis benzilados e fenilados.

O paramonoclorofenol canforado foi introduzido pelo Dentista Alemão Friedich Otto Walkhoff . Em 1891. Link 2. Ele também foi um dos primeiros a fazer radiografias dentárias. Também o primeiro a usar iodofórmio em Odontologia.

WALKHOFF, O. Livro: “Gutachten über die Wirkung des Chlorphenol-Kampfer-Menthols.Tradução Livre do Título pelo  Autor do Blog: “Reportos do Efeito do Clorofenois Canforado e Mentolado.” (1930).

Ainda hoje se emprega em Odontologia, como antisséptico de canais dentários, o paramonoclorofenol canforado. BYSTROM, A.; CLAESSON, R.; SUNDQVIST, G. Endod. Dent. Traumatol. 1, 170 (1985). Link 2.

Até aqui, vimos antissépticos e desinfetantes derivados de fenol.

3.  DERIVADOS DE CLORO E HIPOCLORITO:

Embora o ácido clorídrico aquoso concentrado (nosso reagente!) fosse conhecido desde a Alquimia, descoberto ,Link 2, pelo Alquimista Persa Abu Musa Jabir Ibn Hayyan, Geber, Jabir, e estudado   pelo Alemão Andreas Libavius (descobridor do cloreto de estanho (IV) Líquido Fumegante de Libavius) , e pelo Alemão  Johann Rudolf Glauber (descobridor da neutralização) o “gás clorídrico”, se tinha sido observado, não havia sido caracterizado.

Foi o Químico (na realidade, um “pré-químico” um dos últimos Alquimistas) Sueco Carl Wihelm Scheele, quem, ao tratar o sal pelo “Óleo de Vitríolo“, ácido sulfúrico concentrado, obteve o gás clorídrico, “Espírito de Sal”. Borbulhando em água, ele preparou ácido clorídrico muito concentrado e puro.

Tratando um mineral de manganês, a Pirolusita (bióxido de manganês) com ácido clorídrico, pela primeira vez, prepara o cloro, o halogênio cloro, um gás verde venenoso. Por isso, ele é o descobridor da oxidação. Ele chamou o cloro de “Espírito de Sal Deflogisticado“. SCHEELE, K.W. Proc. Roy. Scient. Acad. Sweden, 89 e 177 (1774) Veja referência 6, deste Link. Veja também.

Dissolvendo o cloro gás em água, ou em lixívia alcalina de soda ou potassa, ou tratando a cal com cloro, Scheele descobre: a água de cloro (uma mistura de ácidos clorídrico e hipocloroso) e os hipocloritos de sódio, potássio e cálcio. NaClO, KClO e Ca(ClO)2.

De fato, o cloro é usado até hoje para desinfecçãomatar bactérias em água potável. a água de torneira que seja em nossas casas é clorada.

O Hipoclorito de Cálcio é o famoso H.T.H, o cloro granulado de piscina. Desinfetante para água de piscina.

Os Hipocloritos foram usados como branqueadores pelo Químico Francês Claude Louis Berthollet. Em 1789, no bairro de Javel, Paris, França, ele borbulha o cloro em solução de soda cáustica, e obtem a “Água de Javel“, uma solução diluída de hipoclorito de sódio.

As “Águas Sanitárias” modernas, tipo: Candida, QBoa, Triex, Barbarex, Ypê, Candura, Super Globo, Brilhante etc… essencialmente, são “Águas de Javel” com fabricação modernizada, e como todos sabem são usadas em branqueamento de roupas, limpeza e como desinfetantes. Eventualmente podem ser usados para desinfetar e purificar água.

São antissépticos muito eficientes, muito mais eficientes que o fenol (veja Ítem 2).

Embora não fossem muito usadas em cirurgias (antes de Lister), as soluções de hipocloritos eram usadas como desinfetantes para pisos. Assim foram usadas pelo Químico Francês Louis-Bernard Guyton de Morveau, em 1773. Mas Médicos Mexicanos começaram a usar em Hospitais. RODRiGUÉZ-PAZ, C.A. Cirujano General, 36, 257 (2014).

O Químico e Farmacêutico Francês Antoine Germain Labarraque , de uma forma empírica, em 1820 (40 anos antes de Lister!), usou soluções de hipoclorito de sódio para tratar feridas e Gangrena. é o famoso “Licor de Labarraque” . BORIN, G.; BECHER, A.N. ; OLIVEIRA, E.P.M. Rev. Endod. Pesq. Ens. 5, 1 (2007). BOUVET, M. Rev. Hist. Pharm. 38, 97 (1950).

Após os trabalhos de Labarraque, ficou bem estabelecida a eficiência antisséptica das soluções de hipoclorito. Curiosamente, não confiando nos hipocloritos, Biologistas famosos como Kock, Roux, preferiam desinfetar as mãos com o perigoso cloreto de mercúrio (II), “bicloreto de mercúrio”. BAKER, J.P. Am. J. Pub. Healt. 98, 244 (2008).

As soluções de Labarraque e a “Agua de Javel” foram  muito usadas em Medicina e em Odontologia, por muito tempo ainda.

Somente em 1915, surgiria o “Líquido de Dakin“. Do Químico Inglês Henry Drysdale Dakin. DAKIN, H.D. Brit. Med. J.  2, 318 (1915). DAKIN, H.D. Compt. Rend. Acad. Scienc. 161, 150 (1915). O  Médico Francês Alexis Carrel, usou a Solução de Dakin em assepsia cirúrgica.

A fórmula original é com hipoclorito de sódio e carbonato de sódio, e tamponado com ácido bórico, e por isso, não pode ser usada em Odontologia (o boro mata as raízes dos dentes).

A “Solução de Dakin” moderna, a que os dentistas usam para lavar os canais, é basicamente  “Solução de Daufresne“,  um Dakin modificado, onde o carbonato de sódio foi substituido pelo bicarbonato de sódio, e o ácido bórico não é usado. DAUFRESNE, M. Presse Medicale, 24, 475 (1916).

CONTINUA, ARTIGO EM EXPANSÃO.

 

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