História dos Ácidos, das Bases e do pH. Parte I.

Imagem Alquímica Simbólica. Representando a “Opus Magnum”, a Obra da Pedra Filosofal. Fonte da Imagem: “The Weird History of Alchemy”

Autoria: Alberto Federman Neto, AFNTECH.

Revisto e ampliado em 10 de Setembro de 2020.

1. INTRODUÇÃO:

Artigo sobre assunto não muito abordado na Internet ou em periódicos científicos. História dos Ácidos, das Bases e do pH.

Esta é a Parte I. Veja as Partes II e III.

2. ÁCIDOS, NA ANTIGUIDADE E NA ALQUIMIA:

Obtido pela fermentação de vinho, de frutas, açucar e mesmo álcool, o Vinagre é um dos ácidos mais antigos conhecidos.

Possivelmente, foi observado pelos Antigos, quando o vinho armazenado, estragava.

Muitos Autores atribuem sua invenção, sua descoberta, aos Babilônios. Links: 1, 2, 3, 4, 5, 3000 anos aC, 5000 aC e mesmo, 10000 aC. Outros Autores citam que o vinagre era conhecido dos Egípcios, dos Romanos e dos Persas.

Desde a antiguidade, os Alquimistas  sabiam fazer e faziam o vinagre pela fermentação natural do vinho, ou do suco de uvas. Mas a industrialização do vinagre para uso alimentício, foi iniciada na França, no século XVI.

O vinagre era usado com fins médicos e também como reagente, por exemplo para extrair plantas e decapar metais. Na idade média, para limpar as armaduras e os objetos de metal.

A palavra Ácido” foi usada pelos romanos, baseada no sabor azedo dos corpos químicos que o continham, como o vinagre e o limão.

Sabe-se, o vinagre contém 4-10 % de ácido acético, cuja descoberta é atribuída (por volta do ano 700 dC) ao Alquimista Árabe Abū Mūsā Jābir Ibn Hayyān, nome latinizado, Geber, quo o teria obtido por destilação do vinagre, usando possivelmente um alambique ou uma retorta, utensílios que inventou. Também o ácido cítrico (do limão) foi descoberto por Geber.

Para a obtenção do ácido acético concentrado, os Alquimistas preferiam fazer a destilação sêca dos acetatos metálicos, principalmente do acetato de cobre (II), o Verdete. o Médico e Alquimista Alemão Andreas Libavius descreve um método para fazer ácido acético. LIBAVIUS, A.; SAURIUS, J. (Coletor); KOPFFII, P. (Editor),  “Alchymia.“, Frankfurt, Alemanha (1606). Libavius foi um do modernizadores da Alquimia prática, experimental.

Como “corpo” ( hoje, composto) puro, o ácido acético foi obtido pelo  , Links 7 8, Médico e Alquimista (um dos últimos Alquimistas, um precursor da Química).  o Alemão Georg Ernst Stahl. Link 6.

O Químico e Farmacêutico Sueco Karl Wilhelm Scheele, estudou o ácido acético, isolou o ácido cítrico em estado de pureza, e descobriu os ácidos tartárico, oxálico, úrico, fluorídrico, cianídrico e ácido arsenioso, embora faleceu precocemente aos 42 anos, sem publicar grande parte de suas descobertas, que oficialmente, foram atribuídas a outros Químicos. WEST, J.B. Am. J. Physiol. Lung Cell Mol Physiol. 307, L811 (2014). LENNARTSON, A. “The Chemical Works of Karl Wilhelm Scheele.” Editora Springer , Berlim, Alemanha (2015).

O primeiro processo industrial importante para fazer o ácido acético concentrado, glacial, foi a destilação seca da madeira, por isso se chamava “Ácido Pirolenhoso“. REICHENBACH, R.V. Am. J. Pharm. 235 (1854). Mac-CULLOCH, J. Trans. Geol. Soc. London, 1, 1 (1814).  Nos tempos atuais, o ácido pirolenhoso volta a ser importante, por razões agrícolas e ambientais, como defensivo seguro ou para aproveitar resíduos. Links: 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22.

Além do ácido acético, são importantes os ácidos minerais clorídrico, sulfúrico e nítrico. E  a “Água Régia“, mistura de ácidos nítrico e clorídrico.

A descoberta dos ácidos sulfúrico, nítrico e da “Água Régia” Links 910, são creditadas também a Geber, embora não se tenha certeza, pois Geber viveu no século VIII, seus textos, em árabe, eram manuscritos e só seriam traduzidos (ou escritos?) após 1300. E  edições bem conhecidas, só no Século XVI. O tradutor (ou escritor?) seria o Alquimista Italiano Paulo de Taranto. Seriam portanto obras “Pseudo-Geber“. KARPENKO, V.; NORRIS, J.A. Chem. Listy 96, 997 (2002). GEBER, I.; HORNIO, G.; DOUDE, A. (Editor), “Gebri Arabis Chimia. Traditio Summae Perfectionis et Investigatio Magisterii.” Editora: Lugduni Batavorum, (1668). Republicado por: BOLTON, H.C (1912). Outra edição. Outras Edições. GEBER, I.; AL-UMAWI, K.Y. (Século VII); AVICENNA (Século X); TARANTO, P. (Século XIII); SCHOFFER, P. (Século XV); PEDERZANO. G.P. (Século XVI, Editor), “Geberis Philosophi Summa Perfectionis Magisterii in sua Natura.” Veneza, Itália (1542).

Alguns Autores atribuem ao Médico e Alquimista Persa Abū Bakr Muhammad Ibn Zakariyyā al-RāzīRazés, a descoberta do ácido sulfúrico.

O ácido sulfúrico puro foi obtido pelo Médico, Filósofo Natural e Alquimista Belga Jan Baptiste Van Helmont, por volta de 1600. O Alquimista Alemão (naturalizado Holandês) Johann Rudolf Glauber  estudou a preparação do ácido sulfúrico (Vítríolo, Óleo de Vitríolo) e foi o primeiro a fabricá-lo em grande quantidade.

Quanto a ácido clorídrico, também teria sido descoberto por Geber  (Loc. Cit.) (por volta do anos 800), mas em forma diluída. Preparado como ácido clorídrico concentrado, pelo Alquimista Alemão Basile Valentin (pseudônimo do Alquimista Alemão Johann Georg Thoide). DATTA, N.C. “The Story of Chemistry.” Editora: Universities Press, Hyderabad, Índia, Pág 56 (2005). Link 12.

Veja a citação, traduzida , link 10, para o Português, da Obra de Basile Valentin, As 12 Chaves da Filosofia“, mostrando a formação do gás clorídrico, um “Espírito de Sal Volátil“. Se você não tampar o vaso, esse espírito será carregado pelo vento….Veja a  Chave VII, sessão VII, Cibação. Veja também outra tradução e comentários.

Esta é uma tradução para o Francês: VALENTIN, B.; LAGNEAU, D. ; GOBILLE, J. (Tradutores); MOET, P. (Editor), “Les Douze Clefs de Philosophie.”, Paris, França (1659).   A publicação original foi em Alemão (1599). Link 11.

Preparado em forma  de solução concentrada ou gás, e em grande quantidade, por Glauber (Loc. Cit.),  através da reação entre o sal e vitríolo, como subproduto da fabricação do “Sal de Glauber“, sulfato de sódio. Veja “Glauber“, nestes Artigos.

E depois por Joseph Priestley e por Humphry Davy . PRIESTLEY, J.  Phil. Trans. Roy. Soc. London, 62, 147 (1772). Link 13. DAVY, H. Phil. Trans. Roy. Soc. London, 98, 333 (1808). Link 14. E por Scheele (Loc. Cit.), que prepara o gás clorídrico e através dele, o oxida e descobre o cloro. Veja Item 3, deste Artigo.

Descoberta ou estudos antigos de outros ácidos. Clique no nome da substância ou nos links para ver o descobridor.  Ácido: fosfórico, link 15, perclórico, oxálico, lático, ftálico, iodídrico, bromídrico, sulfuroso, persulfúrico (Ácido de Caro). Link 16.

3. ÁLCALIS, NA ANTIGUIDADE E NA ALQUIMIA:

O nome “Álcali”,  em Inglês, “Alkali”  para as substâncias alcalinas, pelos Alquimistas Bizantinos, Árabes e Persas. Vem do termo Árabe, Al-Kali, que eram as cinzas vegetais calcinadas, que contém carbonatos de sódio e potássio.

Extraíam dessas cinzas, os álcalis, por lavagem e dissolução com água, uma operação Alquímica chamada “Lixiviação“. Até hoje a palavra “lixívia” pode ser aplicada a soluções alcalinas de carbonatos, hidróxidos, hipocloritos, sabões etc… Links: 16, 17, 18, 19, 20.

De fato esse processo para fabricar os carbonatos a partir das cinzas,  se chamava, entre os Alquimistas Europeus,  “Alographia” ou “Haligraphia” ,  e foi usado no Brasil Colonial. LUNA, F.J. Quím. Nova 31, 2214 (2008). As próprias cinzas eram usadas para fazer sabões, por suas propriedades alcalinas.

Manuscrito: Haligraphia , tradução para o Francês da obra do Alquimista Alemão Basile Valentin, Pseudônimo do Alemão Johann ThoideVALENTIN, B.; DU CAMBOUT, H. (Tradutor), “Haligraphia, C’Est à Dire La Vraye Description des Tous les Selz.” Tradução Livre do Título: “Haligraphia, Quer Dizer a Verdadeira Descrição de Todos os Sais.” Editora: Bibliotheca Mss Coinsliniana, Paris, França (1700). O Original foi publicado em Alemão, (1603). A Biblioteca Coinsliniana, era uma biblioteca e oficina gráfica e de tradução, Francesa, do Século XVII.

Os Alquimistas conheciam vários álcalis, principalmente quando podiam ser encontrados em rochas ou minerais naturais. Assim, conheciam o carbonato de cálcio, (Calcita natural ou extraído de conchas), a Cal (óxido de cálcio), os carbonatos de sódio e potássio.  SCHWARTZ, A.T.; KAUFMANN, G.B. J. Chem. Educ. 53, 136 (1976). SCHWARTZ, A.T.; KAUFMANN, G.B. J. Chem. Educ. 53, 235 (1976). KOLB, D. J. Chem. Educ. 55, 459 (1978).

De fato, os Alquimistas chamavam de “Cal” o próprio carbonato de cálcio, assim como o óxido de cálcio e outros óxidos. Obtinham o óxido de cálcio pela queima dessa “Cal”. É a famosa operação da “Calcinação“. Uma das “12 principais Operações Alquímicas da Grande Obra da Transformação“. Magnus Opus, a imagem que ilustra este Artigo.

Lembrando, já tratei disso em outros Artigos deste Blog, “Transmutação” não era só transformar chumbo em ouro, mas também tentar transformar um metal menos nobre, em um outro mais nobre (menos reativo com ácidos) ou mesmo, transformar um corpo químico (hoje substância) em outro corpo, ou seja uma transformação química, ou ainda melhorar ou purificar algo, tornando-o melhor, esse era o resumo da “Grade Obra“. É um termo simbólico.

Ao contrário do que se pensou por muito tempo, principalmente positivistas, Alquimia não foi uma pseudo ciência falsa, e sim uma proto ciência, que foi muito importante para desenvolvimento da Química moderna. Link 35. 38.

Os Alquimistas preparavam os hidróxidos de sódio ou potássio, tratando a cal (óxido de cálcio) pela água (“cal extinta”) e depois reagindo com soda (carbonato de sódio) ou potassa (carbonato de potássio). KOLB, D. J. Chem. Educ. 55, 459 (1978).

Os Antigos também conheciam a amônia (Álcali Volátil) cuja solução em água é o amoníaco (amônia aquosa, até recentemente chamada hidróxido de amônio).

Os Romanos a extraíam da urina, links: 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29. mas outros Alquimistas preferiam usar um mineral romano da Ilha de Creta, província de Hammoniacum , chamado “Sal Amoníaco“, (é o cloreto de amônio). O “Sal Amoníaco” também era encontrado perto de vulcões como o Vesúvio. Cloreto de amônio.

O Termo “Sal Amoníaco” aparece pela primeira numa obra “Pseudo-Geber” (que como vimos, era provávelmente de Paulo de Taranto). Para reforçar a cito novamente, com a página que descreve o “Salis Armoniaci“. GEBER, I.; AL-UMAWI, K.Y. (Século VII); AVICENNA (Século X); TARANTO, P. (Século XIII); SCHOFFER, P. (Século XV); PEDERZANO. G.P. (Século XVI, Editor), “Geberis Philosophi Summa Perfectionis Magisterii in sua Natura.” Veneza, Itália, Pág 114 (264 no documento digitalizado) (1542). HOLMYARD, E.J.; RUSSEL, R. “The Works of Geber, the Most Famous Arabian Prince and Philosopher, of the Investigation and Perfection of the Philosophers-Stone.” Editora: Pelican in Little Britain, Londres, Inglaterra, Pág 261 (138 no documento digital) (1686).

Por isso, se considera Geber o descobridor do sal amoníaco e da amônia. Foi estudada por outros Alquimistas como Santo Alberto Magno. Basile Valentin prepara a amônia (Spiritus Salis Urinae”) reagindo o “Sal Amoníaco” com outros álcalis. Também por outros Químicos, como Peter Woolfe, Joseph Black, Karl Wilhelm Scheele, Joseph Priestley Claude Louis Berthollet.

Modernamente se chama, às vezes, de “Sal Amoníaco“, o carbonato ou o bicarbonato de amônio.

4. NEUTRALIZAÇÃO E FORMAÇÃO DE SAIS:

A reação entre os ácidos e os álcalis (veremos depois, bases), já havia sido observada por muitos alquimistas, de maneira empírica e prática. Filosóficamente, representava a combinação entre dois princípios antagônicos, um masculino e um feminino, formando uma “Terra” ou um “Sal”.

Essa ligação com a Filosofia, dos princípios masculino e feminino,  irá permanecer, em alguns autores, até a Alquimia moderna. Para o Filósofo Esotérico e Alquimista moderno  Francês René Adolphe Schwaller de Lubicz, um sal era a combinação entre um princípio ativo masculino da Divindade, um “Enxofre”, “Peras” e sua Natureza passiva, feminina e mercurial, a “Prima Materia“, a matéria primária, “Apeiron“. DUFOUR-KOWALSKI, E.; ROUX, D. (Tradutora), “L’Ouvre au Rouge, de Schwaller de Lubicz.” Editora: Éditions L’Age de L’Homme, Lausanne, Suíça (2006). CHEAK, A. “Light Broken Through the Prism of LIfe: René Schwaller de Lubricz and the Hermetic Problem of Salt.” Tese de Doutorado em Filosofia, Universidade de Queensland, Austrália (2010). VANDENBROECK, A. “Al-Kemi, Hermetic, Occult, Political and Private Aspects of R. A. Schwaller de Lubicz.” Editora : Inner Traditions (1987). Link 30. CHEAK, A. (2020).

De uma maneira empírica e experimental, Alquimistas muito antigos, preparavam sais.

Por exemplo numa obra atribuída a ele, o Médico e Alquimista Persa Abū Bakr Muhammad Ibn Zakariyyā al-Rāzī , Razés, ou Razis, prepara sais e alúmens. FERRARIO, G. (2007). BUNNETT, C. (2015). STEELE, R. Isis, 12 , 10 (1929). Link 31RAMPLING, J. (2018). VINCIGUERRA, A. Ambix, 56, 57 (2013). MILLESSIMA, J (2020). EUGÉNE-HUBERT, G. Rev. Hist. Pharm. 65, 361 (1929).

Nessa obra, “Liber de Aluminibus e Salis”, “Livro do Alúmens e dos Sais.”, Razés (ou Pseudo-Razés), (tradução de Gherardo de Cremona, tradutor Italiano), prepara e descreve o alúmen, o sal gema, o sal de cozinha, os vitríolos (ácido sulfúrico e seus sais) etc… NEWMANN, W.R. “Alchemy, Assaying and Experiment.” (2000). GAGNON, C. Aries, 11, 119 (2011). KARPENKO, V.; NORRIS, J.A. Chem. Listy 96, 12 (2002). WILLIAMS, W. Ambix, 56, 68 (2009)ARISLEO, pseudônimo de GRATAROLO, G.; LUCARELLI, P. (Tradutor) “La Turba dei Filosofi.” Editora: Edizioni Mediterranee, Roma, Itália, Pág 9, (1997).

Contudo, nessa época, a preparação dos sais era  só empírica, prática e experimental.

Glauber e a Reação Ácido-Base, Neutralização.

No século XVII, o Alquimista (um dos últimos, um pioneiro da Química e da Engenharia Química) Alemão (naturalizado Holandês) Johann Rudolf Glauber, (1604-1670), estudou as reações entre os ácidos minerais e diversos álcalis (mais tarde, bases). Link 32.

Ele havia estudado vários álcalis, a partir de minérios, ou evaporando águas minerais, e estudava suas reações com ácidos. Estudou a água régia, o bórax, o sal amoníaco, o vitríolo, a soda e a potassa etc…  Links 33,

Em 1625, ele isola o sulfato de sódio neutro a partir de uma água mineral da Áustria. Mineral “Mirabilite“. Link 34. 35, Ele chamou o “corpo”, hoje composto, “Salis Mirabilis“, “Sal Maravilhoso”, pela beleza de seus cristais do decahidrato, Na2SO4.10H20, conhecido como “Sal de Glauber“, e e descobriu suas propriedades medicinais,   acreditava que servia até para tratar doenças graves, mas hoje se sabe,  ele é só  é laxativo.

GLAUBER, J.R. “Tractatus de Tribus Principiis Matallorum Videlicet Sulphure Mercurio e Sale Philosophorum.” Tradução Automática do Título: “Tratado da Fabricação e Venda dos Princípios Metálicos, Enxofre, Mercúrio e Sal Filosóficos.” Editora: Joanenn Janssonium, Amsterdã, Holanda, Págs. 19, 39 (1667). Outro Link

GLAUBER, J.R. “Tractatus de Natura Saluim.” Tradução Livre do Título: “Tratado Sobre a Natureza dos Sais.” Editora: Joannen Janssonium, Amsterdã, Holanda, Págs: 53, 56, 61-63, 92 (1659).

GLAUBER, J.R. “Miraculum Mundi.” Editora Joanner Janssonium, Amsterdã, Holanda, Pág. 37 (126 no documento digitalizado) (1653).

Posteriormente, Glauber verifica que o seu sulfato de sódio podia ser usado na indústria do vidro, link 37,  e quer fabricá-lo em grande quantidades.

Para isso, desenvolve a reação entre o sal comum e o vitríolo, obtendo o sulfato de sódio e grandes quantidades de gás clorídrico, que chamou “Spiritus Salis“, “Espírito de Sal“. Até hoje, é o principal método para preparar o gás clorídrico em laboratório. HILL, J.C. J. Chem. Educ. 56, 593 (1979).

Também fez uma reação semelhante, usando o sal amoníaco, o cloreto de amônio, e obtendo o sulfato de amônio. MULTHALF, L.P. Technol. Cult. 6, 569 (1965).

Para o Leitor entender a Química, usando equações modernas, eis a reação que Glauber desenvolveu:

2 NaCl     +  H2SO4        =    Na2SO4    +  2 HCl

Ao obter o sulfato por outro método, a reação entre o vitríolo e a soda, Glauber descobre a a reação entre ácidos + álcalis e a sistematiza, para vários ácidos e álcalis. KOLB, D. J. Chem. Educ. 55, 459 (1978). PEATROWSKY, “The Origins of Acids ans Alkalis.” (2001).

GLAUBER, J.R.. PACKE, C. (Coletor e Tradutor) “The Works of the Highly Experienced and Famous Chymist John Rudolph Glauber.” Editora: T. Milbourn, Republicação: Newman, D. Londres, Inglaterra (1689). Outro Link.

H2SO4     +  Na2CO3        =    Na2SO4    +  H2O  + CO2

É a famosa Reação de Neutralização ou Salificação.

Glauber conclui que de maneira geral, ácidos reagem com álcalis, produzindo sais neutros. É a “Lei de Glauber“, o primeiro modelo simples de reação ácido-base. Veja, por exemplo, o 4° parágrafo neste texto.

Ele aplicou a muitos sais, álcalis e ácidos. Por exemplo, decompunha o salitre por aquecimento com vitríolo, ácido sulfúrico, recolhia, seu “espírito”, água forte, ácido nítrico, e o neutralizava para obter o salitre novamente…

Glauber chamou a reação de neutralização, como uma etapa da  “Redintegração“.  GLAUBER, J.R. “Appendix Quintae Partis Prosperitatis Germaniae.” Editora Johannes Janssonii, Amsterdã, Holanda (1660). BUYSE, F.A.A. Found. Chem. 22, 59 (2020) . Outro Link.

Glauber foi um dos primeiros a industrializar produtos químicos em grande quantidade, por isso é um dos iniciadores da Engenharia Química. Link 34. 36.

Do seu trabalho pioneiro, surgiram o “Processo das Câmaras de Chumbo“, para fazer ácido sulfúrico e o processo Leblanc, para fazer carbonato de sódio. São os primórdios da indústria química de base. KNAPP, F.L. (Alemanha, Autor); RONALDS, E.; RICHARDSON, T. (Inglaterra, Tradutores); JOHNSON, W.R. (EUA, Editor) “Chemical Technology.” Editora: Lea & Blanchard , Philadelphia, EUA, Vol. 2 (1849).

As neutralizações de Glauber, foram logo confirmadas por vários outros Alquimistas e se supunha, fosse o único tipo de reação geral que podia existir.

Sylvius e Tachenius:

O Médico Alemão (naturalizado Holandês) Franciscus Sylvius De Le Boe, (aluno de Glauber) e o também Médico Alemão Otto Tachenius , link 40, haviam preparado o análogo de potássio do Sal de Glauber, sulfato de potássio, que Tachenius chamou “Salis Duplicatum, “Sal Duplicado“, por ser semelhante ao sal de sódio.

Influenciados pelas  idéias Espagíricas e Iatroquímicas, de Paracelso e Van Helmont , eles acreditavam que todas as reações que ocorriam no corpo humano eram tipo ácido base, (KOLB, Loc. Cit.) (BUYSE, Loc. Cit.) e propuseram que ácidos,  álcalis e sais fossem usados como medicamentos, pois o ácido era um princípio masculino e o álcali, feminino. TACHENIUS, O., THOMAS, T. (Tradutor) “Antiquissimae Hipprocraticae Medicinae Clavis ” “Tradução automática do Título: “Chave da Antiquíssima Medicina Hipocrática.“, 3 Edições, (1677) e (1690). STRATHERN, P.; BORGES, LM.L.X.A. (Tradutora), “O Sonho de Mendeleiev, a Verdadeira História da Química.” Editor: Jorge Zahar, Rio de Janeiro, Brasil , Págs. 143, 264 (2002). STATHERN, P. “The Mendeleyev’s Dream.” Editora; Crux Publishing, Londres, Inglaterra (2018).

Porém a hipótese das reações ácido-álcali, de Glauber, Sylvius e Tachenius, não seriam aceitas por todos.

Robert Boyle e Outros, e a Natureza dos Ácidos, Álcalis e Sais:

O Químico (e  também Alquimista, um dos últimos) e Físico Irlandês Robert Boyle (veja Item 1, neste Artigo) , foi outro Cientista que estudou extensivamente a reação de neutralização, os ácidos e as bases. Link 64.

Ele reconhecia que a matéria podia ser decomposta e depois reconvertida, mas rejeitava as Teorias Ácido-Alcali de Glauber. (KOLB, Loc. Cit.),  (BUYSE, Loc. Cit.), BOYLE, R. “Reflexions Upon the Hypothesis of Alcali and Acidum., citado, pág 41 em: SIGFRIED, R. “From Elements to Atoms, A History of the Chemical Composition.” Editora: American Philosophical Society, Filadélfia, EUA, Págs. 37, 38, 41, 42, 43, 44, 48, 53, 76, 77,  78, 97, 98, 154 etc… (2002). Nessa obra, a discussão polêmica entre Boyle , Glauber, Sylvius e Tachenius, aparece citada várias vezes. Também citado em várias páginas, em: BOYLE, R.; SHAW, P. (Editor), “The Works of the Honourable Robert Boyle.” Londres, Inglaterra, Vol. III (1738). Este é o Link para a entrada de todos os seis volumes. Outro Link.

Em outra obra, menos conhecida de Boyle, ele também critica as metodologias empregadas por Glauber. Nem tudo o que reage com ácidos, é um álcali, e o uso de álcool (por Glauber) muda a reação. BOYLE, R. “Some Considerations Touching the Usefulnesse of Experimental Natural Philosophy.” Editora H. Hall, Oxford, Inglaterra, Págs.  163-354 (305-465 no documento digitalizado) (1664).

Além disso, para Boyle, havias sais “fixos” , “sais ácidos” e  “sais voláteis” que formavam “espírito”, e não tinham pura “natureza salina”. Não eram só sais neutros  “fixos”, cuja natureza ácida ou alcalina, havia sido “destruída” (hoje se diria, neutralizada), como pensavam os Alquimistas Iatroquímicos Helmontinianos como Glauber, Sylvius e Tachenius. BOYLE, R. “The Sceptical Chymist.” Editora: J.M. Dent & Sons, Londres, Inglaterra (1680). Reedição, republicação, com Introdução de MUIR, M.M.P., Editora E.P Dutton & Co., New York, EUA, Págs 219-225 (1911). Link 43.

Rejeitava também porque era adepto da “Filosofia Corpuscular“, link 38,  39, e da “Filosofia Mecanica“, link 36, 37, 40, 41, 44, os átomos eram corpúsculos mecânicos e elásticos, como se tivessem molas, e espaços entre eles (maiores nos gases, e a elasticidade aumentava) e ao se combinarem, formariam totalmente outro “corpo” (hoje,  diferente produto de reação). JENSSEN, W.B. (2010). CHALMERS, Phil. Chem. 6, 47 (2012).

Para Boyle, os experimentos de Glauber  eram interessantes e formavam um sal, link 42 , mas não eram sempre reprodutíveis… BOYLE, R. “The Origine of Formes and Qualities, According to Corpuscular Philosophy, Illustrated by Considerations and Experiments.” Editora H Hall, Oxford, Inglaterra, Págs. 336-345 (393-401, no documento digitalizado) (1666). BUYSE, F.A.A. Found. Chem. 22, 59 (2020). FIRTH, D.C. (1969).

Sobre a controvérsia entre Boyle a neutralização Ácido-Base, veja: PRINCIPE, W. “The Aspiring Adept. Robert Boyle and His Alchemical Quest.” Editora: Princeton University Press, Princeton, New Jersey, EUA, Págs. 160-171  (1998). BOAS HALL M. “Robert Boyle and the Seventeeth Century Chemistry.“Editora: Cambridge University Press, Cambridge, Inglaterra, Págs. 38, 39  (1958). NEWMAN, W.R.; PRINCIPE, L.M. “Alchemy Tried in Fire.” Editora: University of Chicago Press, EUA, Pág 284 (2005). CLERICUZIO, A. Brit. J. Hist. Scienc. 26, 303 (1993). KIM, M.G. Scienc. Context, 14, 361 (2001).

Resumo da Filosofia Química de Robert Boyle, Links: 45, 46, 47, 48, 49, 50: Mecanicista, Link 58, Corpuscular , Link 57, e Microestrutural. Um átomo era uma unidade minúscula, “Minima Naturalia“. Acreditava que  toda  a matéria continha átomos, esses átomos eram corpúsculos, se movimentavam, eram mecânicos, elásticos, existiam espaços entre eles, maiores no gás, e o tamanho dos átomos e seu formato e seu arranjo é o que definia as características de cada “corpo” (hoje chamaríamos de compostos ou substâncias químicas). Os corpos reagiam entre sí, formando novos átomos, novos materiais, que nada tinham a ver com os reagentes. O que importava era a Natureza de cada material e seu movimento. Até o calor era movimento. As características seriam inerentes à Natureza Fundamental de cada átomo ou seus agregados. Essa Natureza, o Material, Tamanho e Textura, veja: CECON, K. Scient. Stud. 10, 711 (2012).

Boyle negava: A Alquimia mas só a parte  Mística, as teorias ácido-álcali, os 4 ou 5 elementos Orientais e Aristotélicos, o enxôfre o mercúrio e o sal , Link 65, como elementos (“Tria Prima de Paracelso), assim como negava os elementos da matéria de Becher e Geber (enxõfre e mercúrio, ou água, ar e terra, como elementos, MORAN, A. Ben Jon. J. 20, 1 (2013), e a divisão das terras em três, ex. Terra Pinguis). Link 66, Veja estes meus Artigos, Links: 51, 52, 53, 54. Também negava a “Matéria Primordial” , Link 61,   Causa Primária”, e o “Solvente Universal“, o Alkahest  (porque o procurara e pesquisou) Link 60, de ParacelsoMercurius Van Helmont, Links: 55, 56, 59.

De fato, Boyle não acreditava nos elementos simples, Link 68, inclusive os elementos químicos, achava que tudo podia ser decomposto. ZATERKA, L. Cad. Hist. Fil. Ciênc. 11, 63 (2003).

No que se refere ao Flogisto. A princípio, Boyle não era um Flogista, até porque viveu entre 1627 e 1691, e Stahl, autor da Teoria do Flogisto, de 1659 a 1734. A maior parte da obra de Boyle, ocorreu antes do Flogisto ser muito divulgado. Mas Stahl se baseou em observações de vários Cientistas, inclusive de Boyle, de que o ar era necessário às combustões. Link 61. E Stahl não aceitava a idéia de Boyle, da uniformidade da presença dos corpúsculos na matéria.

Boyle mostrou que metais ou cales, óxidos calcinados, o produto ganhava peso , Link 66, (devia perder), mas isso não inviabilizaria o Flogisto, pois esse podia ter massa negativa. Link 61. 62. Mas Boyle atribuia o ganho de peso à incorporação de corpúsculos do material calor (um pouco parecido a princípio ao Calórico de Lavoisier) e isso era contrário à Hipótese Flogista. Link 63. 64. 65. 67.

Ele se declarava não partidário do Flogisto, Link 67, Mas o seu [e de Isaac Newton, outro “Corpusculista”] “material de calor“, corpúsculos do calor, “Materia Ignis”, que era incorporado durante a queima, aumentando o peso, ponderável, não era exatamente parecido com o Calórico de Lavoisier, porque este último estava no ar e não no fogo, e apenas sua manifestação era ponderal, ele era um fluido não uma substância química,

Para Boyle, o calor era uma substância, e não simples, porque nada era simples, não haviam elemntos químicos simples, apenas ainda não tinha sido possível dfazer a decomposição. MELHADO, E.M. Hist. Stud. Phys. Scienc. 13, 311 (1983). POWERS, J.C. Ambix, 61, 385 (2014). DE MOURVEAU, L.B.G. Bull. Hist. Chem. 5, 5 (1989). SMEATON W.A. Bull. Hist. Chem 5, 4 (1989). WALDEN, P. Science New Series, 66, 407 (1927).

Os conceitos de  ácidos e álcalis, naturalmente, seguiam as Teorias de cada Cientista.

Assim, para Stahl, ácidos se combinavam a álcalis, para formar sais (como em Glauber), mas para Stahl, ácidos fortes deslocam os fracos ( o que é verdade!).

Para Boyle, ácidos e álcalis tinham o seu sabor azedo ou cáustico, devido a sua estrutura, seus átomos e o arranjo, e sais, fixos ou voláteis, não se formam de seus fragmentos ou partes elementares, porque elas não existem.

Para Isaac Newton, havia afinidade química entre ácidos e álcalis, ou seus espíritos voláteis, formavam-se sais e água (parecido com o que se conhece hoje).

Para Lavoisier, todo ácido tem que ter oxigênio (“gerador de ácidos”) porque esse oxigênio vem de óxido (álcali) ou óxido ácido (ácido). O  sal seria sempre fixo, e quando a massa se perde, é  porque o sal  se combinou com a água.

Para as idéias desses Cientistas sobre ácidos, álcalis e sais, veja: QUERTATANI, L.; DUMON, A. Act. Chim. 306, 40 (2007). TROUESSART, J.L. “Essai Historique sur la Theórie des Corps Simples ou Élémentaires.” Editora: J. Bailliére et A. Lefournier, Brest, França, Parte 1, (1854). BENSAUDE-VINCENT, B. Rev. Hist. Scienc., 49 (1995). WURTZ, C.A.;  HACHETTE, L. (Tradutor). “Histoire des Doctrines Depuis Lavoisier, Jusqu’a nos Jours.” Editora: Librairie de L. Hachette et Cie., Paris, França (1869).

BERTHELOT, M.; ALCAN, F. (Editor) “La Révolution Chimique, Lavoisier.” Editora Germer-Baillière, Paris, França (1890). METZGER, H. Isis, 9 , 294 (1927) . METZGER, H. Archeion, 14, 31 (1932). METZGER, H. “Newton, Stahl, Boerhaave e la Doctrine Chimique.” Editora: Félix Alcan, Paris, França (1930)

Hélène Metzger foi uma conhecida Filósofa e Historiadora de  Ciências, Francesa. Judia, foi morta pelos Nazistas em 1944. Félix Mardochée Alcan foi um famoso Editor de Ciências e Filosofia e Matemático Francês.

Continua na Parte II.

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